IPAC - Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia

    III Bienal da Bahia 2014

Conceitos Gerais – Educação Patrimonial

As ações educativas desenvolvidas pelo IPAC no âmbito da Diretoria de Preservação do Patrimônio (DIPAT) objetivam a sensibilização das comunidades quanto à preservação de seu patrimônio e de sua memória através da adoção de posturas preservacionistas, tendo em vista que um dos principais fatores de dano ao patrimônio histórico e cultural é sua desqualificação como fonte de referência para a identidade local, na maioria das vezes derivada do desconhecimento de sua importância e consolidada pela invasão de culturas estranhas.

Nessa perspectiva, a educação é vista como processo. Processo de apreensão de conhecimentos através da reflexão constante, do pensamento crítico, criativo e da ação transformadora do sujeito, constituindo-se uma atividade condicionada histórica e socialmente.

Partindo desse pressuposto, a Educação Patrimonial é um processo educativo centrado no patrimônio cultural e que se volta para a aquisição de valores e comportamentos que permitam seu reconhecimento, valorização e preservação.

Outro aspecto a considerar é que a preservação do patrimônio cultural passa necessariamente pelo reconhecimento do patrimônio como referencial para a identidade do grupo e do indivíduo em um determinado tempo e espaço e considerando ainda que as diversas áreas do conhecimento não funcionam como compartimentos estanques, mas são parte de uma grande diversidade, resultado de uma teia de relações, em que cultura, ciência e tecnologia em cada momento histórico, são construídas e reconstruídas pela ação do homem, produtor de cultura e conhecimento.

Apropriar-se de seu patrimônio é identificar-se nele, é fortalecer o senso de pertencimento ao grupo do qual ele representa simbolicamente a identidade. Significa construir uma identidade a partir de traços de um passado comum.

Como resultante dessa ideia tem-se que um dos aspectos importantes da metodologia e da estratégia da ação educativa é o protagonismo, entendido como a participação efetiva do indivíduo, grupo ou comunidade, no processo de apropriação da cultura e do patrimônio, a partir do estabelecimento de uma relação afetiva.

Valorizar o patrimônio vai, portanto, muito além do respeito aos monumentos, obras de arte, museus. O que chamamos de patrimônio cultural vincula-se às pessoas e à sua ação, às histórias, hábitos e expressões, realidades que pertencem ao passado da população e cujos vestígios ainda fazem parte do cotidiano. Preservar é, então, uma atualização constante da memória e dos valores que definiram aquele objeto ou expressão cultural como representativos e, portanto, patrimônio da coletividade.

O protagonismo tem ainda reverberações mais profundas. Significa também a possibilidade dos diversos sujeitos culturais definirem por si mesmos, o que deve e o que é importante ser preservado, o que delimita a fronteira entre a identidade e a alteridade.

O que nos leva ao conceito liberal do multiculturalismo ou pluralismo, caracterizado como o “respeito e o direito de existência e manifestação das diferentes expressões culturais minoritárias de uma sociedade” (Barbalho. 2001) e nos remete à questão do poder. Poder de definir, por exemplo, o que é a identidade e o que é a alteridade; o que é a norma, o padrão e o que é o desvio, o diverso, o diferente.

A permanência dos resultados do processo educativo se dá a partir da construção do conhecimento, concebido como resultado de uma interação entre os diversos sujeitos sociais que compõem a comunidade: escola, família, instituições, igrejas, associações, clubes, etc., na qual o sujeito-aprendiz é sempre um elemento ativo, que procura compreender o mundo que o cerca e que busca resolver as interrogações que esse mundo provoca.

Vale agora refletir um pouco sobre o axioma “só se ama o que se conhece” implicando numa estreita interrelação entre o conhecimento intelectual e o conhecimento afetivo, ou seja, a identificação, no patrimônio, de valores que nos permitam reconhecê-lo com um bem.

A ação educativa, portanto, deve enfocar esses dois aspectos – o conhecimento intelectual do objeto e o conhecimento afetivo que o transforma num bem e se volta para o seu reconhecimento e valorização como traço identificatório comum. É precisamente aí que se torna mais e mais importante a interação entre os diversos sujeitos sociais, dando sentido e pertinência ao patrimônio cultural.