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SOLAR FERRÃO REABRE SALAS DA COLEÇÃO DE ARTE AFRICANA

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Com nova expografia, o Centro Cultural Solar Ferrão (Pelourinho), reabre em 23/11, a partir das 15h, com bate-papo com o curador Ademir Ribeiro – e em comemoração ao Mês da Consciência Negra -, as três salas que abrigam a Coleção de Arte Africana Claudio Masella. Foram selecionadas 198 peças, divididas em três núcleos expositivos que exploram o colecionador (e sua coleção), a questão das identidades africanas e a ancestralidade africana e afro-brasileira. O Centro Cultural Solar Ferrão é administrado pela Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Dimus/Ipac).

 

De acordo com o curador Ademir Ribeiro, os objetos que são chamados de forma genérica por “arte africana”, como os exibidos nesta mostra, foram interpretados de forma distorcida pelas sociedades ocidentais, considerados primitivos, toscos ou maléficos. “A mudança dessa mentalidade ocorreu a partir do início do século XX, principalmente dentro do campo artístico, quando pintores e escultores engajados em movimentos de vanguarda valorizaram a arte africana e asiática como fontes de inspiração para a renovação da arte europeia. Tendo em vista que até hoje a arte africana é mal compreendida, são explorados nesta exposição os múltiplos sentidos dados a esses objetos em suas sociedades originárias”, explica.

 

A coordenadora da Dimus, Fátima Santos, explica que esta reabertura é apenas o início do processo de requalificação pelo qual o Solar Ferrão está passando. “Já revisitamos as salas da Coleção de Walter Smetak e agora estamos entregando a nova expografia da Coleção de Arte Africana. Além disso, estamos realizando uma requalificação física geral do prédio e ainda vamos finalizar o trabalho no Museu Abelardo Rodrigues e da Coleção de Arte Popular”.

 

A nova expografia

 

A Coleção de Arte Africana Claudio Masella ocupa três salas no Solar Ferrão. Na primeira sala é feita uma contextualização sobre a história do colecionador e sua coleção, onde estão peças representativas de cada categoria estabelecida no processo de identificação e classificação do acervo.

 

Na segunda sala é abordada a questão das identidades culturais africanas, enfocando quatro regiões estilísticas da África que estão bem representadas na coleção. Esta sala expositiva pretende desconstruir a supervalorização do elemento étnico em relação aos outros níveis de identidade, pois há uma tendência à “tribalização” dos povos da África. A etnicidade, vista como o processo de manutenção das fronteiras sociais e a coesão dos indivíduos dentro do grupo, pode até mesmo nem ser expressa na cultura material. Os estudos etnoarqueológicos atuais mostram que a identidade cultural africana se evidencia principalmente nos níveis regional e familiar, mais do que no nível étnico. Assim, quatro regiões estilísticas são exibidas nesta sala para exemplificar essas questões.

 

Na terceira sala expositiva são vistas máscaras e estatuetas relacionadas à ancestralidade africana e afro-brasileira que celebram, materializam ou tornam presentes os antepassados de um grupo social. Os rituais de culto aos ancestrais estão amplamente difundidos entre as sociedades africanas e também formaram o substrato cultural dos antigos terreiros de candomblé baianos.

 

Muitas vezes, a pluralidade das culturas africanas é descrita como se formasse um todo homogêneo e estático, mas a materialidade dos objetos exibidos permite perceber a grande diversidade cultural do continente e suas transformações ao longo do tempo. “À ideia de primitivo, contrastam as complexas tecnologias de forja dos metais e tratamento das formas em madeira, que foram desenvolvidos ao longo de milênios. Ao contrário de serem ligadas a forças destrutivas, as estatuetas e máscaras africanas são usadas para promover o bem da comunidade, pois participam de celebrações religiosas que propiciam a saúde, fartura, bem-estar e harmonia social”, acrescenta Ademir Ribeiro.

 

O colecionador e sua coleção

 

Claudio Masella nasceu em Roma (Itália), em 2 de agosto de 1935. Morou por muito tempo na África desenvolvendo atividades no setor de fabricação de móveis. Era um amante da arte africana, tendo colecionado por mais de três décadas objetos de formas, origens e significados diversos. Após ter se casado com a brasileira Conceição Ramos Masella, conheceu Salvador (BA) e se apaixonou pelo povo baiano, manifestando interesse em deixar sua coleção acessível à população da cidade, por ser a capital do país com maior proporção de afrodescendentes. Seu objetivo era que esse acervo pudesse contribuir para a difusão da beleza e do conhecimento sobre a história da arte africana.

 

À coleção, que totaliza 1.039 objetos, foi doada ao Governo da Bahia em 2004, foi feito o inventário museológico e a pesquisa de identificação das peças. A pesquisa revelou que 90% das peças identificadas são provenientes da África Ocidental, sendo mais recorrentes os objetos vindos da Nigéria, Gana, Costa do Marfim e Burquina Faso. Foram reconhecidos estilos de mais de 20 sociedades africanas, sendo mais numerosas as peças provindas dos iorubás, povos akan, senufo, dan e bobo/bwa. Quanto à matéria-prima, 67% dos objetos da coleção foram feitos em madeira e 31% em ligas de cobre. A madeira tem significado mitológico e religioso, pois é extraída das árvores que são consideradas, em muitas sociedades africanas, o lugar de morada dos ancestrais. As ligas de cobre, como o bronze e latão, são consideradas nobres e frequentemente associadas à realeza por sua semelhança ao ouro na cor e na resistência à corrosão.

 

Pela análise morfológica e pelo seu histórico podemos situar a coleção na fase pós-colonial ou contemporânea, produzida a partir da segunda metade do século XX. Nesse período, sobretudo após as independências dos países africanos, temos no campo das artes escultóricas o incremento das inovações de material, estilo e função dos objetos.

 

ALGUNS DESTAQUES

 

Máscaras gueledés. Madeira policromada. Iorubá, Nigéria/Benim - As máscaras gueledés são usadas pelos membros de uma instituição tradicional dos iorubás para cultuar de forma coletiva o poder ancestral feminino. Elas são compostas por uma parte em madeira esculpida na forma de uma cabeça humana ou de animal. A essa parte de madeira, que fica na cabeça como um capacete, geralmente fixa-se um prolongamento feito com fibras vegetais, tecidos ou roupas. Elas são usadas para aplacar a ira das geniosas Iyamis, que são entidades muito poderosas ligadas à fartura nos campos e à fertilidade das mulheres. Nessa cerimônia, ao som de atabaques e cânticos, os dançarinos paramentados, adornados com joias e outros acessórios como esculturas de seios e ventre protuberantes de madeira, e executando movimentos femininos com o quadril, saem em procissão pelas ruas da cidade. Assim, eles abstêm-se simbolicamente de sua masculinidade para divertir, mimar e prestar homenagem às Iyamis e garantir que elas não fiquem encolerizadas.

 

Ibejis. Madeira, cauris e miçangas. Iorubá, Nigéria/Benim - Os iorubás têm a maior taxa de nascimento de gêmeos do mundo. Esse povo acredita que os gêmeos dividam uma única “alma” e que são filhos do orixá Ibeji. Quando um dos gêmeos falece, o irmão sobrevivente deve carregar consigo uma estatueta do mesmo sexo daquele que morreu. Os Ibejis ficam em altares familiares e são frequentemente vestidos com roupas de tecido ou uma espécie de manta de cauris. Acredita-se que eles possuam poderes sobre a fertilidade e, por isso, são agraciados com suas comidas favoritas por mulheres que desejam engravidar.

 

Trono. Latão. Bamum/Bamileque/Tikar, Camarões - Na região de campos dos Camarões (grasslands) há diversos grupos étnicos aparentados, como os bamuns, bamileques e tikars, que produzem uma série de bens de prestígio para os integrantes da corte. Entre os objetos mais importantes estão os tronos e bancos que são confeccionados especialmente para a cerimônia de entronização de reis e rainhas. O trono aqui exibido, pelas figuras femininas, seria destinado a uma mulher.

 

Cena de oferenda. Liga de cobre. Bini, Nigéria - Representação de uma mulher grávida fazendo uma oferenda para o deus do ferro que, entre os binis, é chamado de Ogun, Ogu ou Ogwu. Ela oferece um galo e outros elementos votivos em uma bandeja, como bebida, caramujos e cauris. Possui muita semelhança com as oferendas realizadas pelos iorubás, que são seus vizinhos.

 

Estatueta feminina (akua ba). Madeira. Região Akan, Gana - A tradição oral dos povos akan conta que Akua, uma mulher estéril, tornou-se mãe de uma menina após construir uma boneca de madeira semelhante a esta. O estilo da escultura revela o ideal de beleza desses povos: a cabeça arredondada e a testa grande.

 

Esculturas em forma de cabeça. Terracota. Região Akan, Gana - Essas peças evocam a arte funerária dos povos akan. A tradição oral relata que cabeças de barro eram feitas no momento da morte dos soberanos para que fosse possível retratá-los nos seus últimos momentos de vida.

 

Máscara. Madeira policromada, couro e metal. Igbo, Nigéria - Os igbos, diferentemente dos seus vizinhos iorubás, não possuem o poder centralizado na figura de um rei. Os diversos povoados são liderados por grupos de anciões que realizam celebrações em honra dos antepassados. Essa máscara representa um ancestral masculino.

 

Batakari (túnica de guerra). Algodão, couro e osso. Povos Akan, Gana - Túnica de algodão contendo diversos amuletos e crânios de animais. Peças como esta eram usadas por guerreiros para se tornarem invencíveis nas batalhas. Também era usada por adivinhos, curandeiros e chefes nos rituais de iniciação e funerais de pessoas importantes da comunidade.

 

 

CENTRO CULTURAL SOLAR FERRÃO

 

Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o casarão construído entre o fim do século XVII e início do XVIII possui seis andares e abriga a Galeria Solar Ferrão, o Museu Abelardo Rodrigues e quatro coleções: a Coleção de Arte Popular (ampliada pela arquiteta Lina Bo Bardi) que reúne peças representativas da cultura popular do Nordeste coletadas entre as décadas de 50 e 60; a Coleção de Arte Africana Claudio Masella, que mostra a riqueza estética e a diversidade da produção cultural africana do século XX; a Coleção de Instrumentos Musicais Walter Smetak, suíço que marcou a história da música brasileira, influenciando movimentos como a Tropicália; e a Coleção de Instrumentos Musicais Tradicionais Emília Biancardi. O Solar Ferrão integra os espaços administrados pela Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (DIMUS/IPAC), da Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA).

 

Visitação: terça a sexta das 10h às 17h; sábado das 13h às 17h.

Entrada: grátis

Endereço: Rua Gregório de Mattos, 45 – Pelourinho, Salvador (BA)

Contato: (71) 3116- 6743

 

Núcleo de Comunicação – Ascom Dimus

Jornalista responsável: Yara Vasku (DRT-PR 2904)

(71) 3117-6445/ 99119-7746
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Centro Cultural Solar Ferrão – 1º andar
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