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Mostra Emília Biancardi inaugura uma nova ala do Centro Cultural Solar Ferrão

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O Centro Cultural Solar Ferrão (Rua Gregório de Matos, 45 – Pelourinho) apresenta algumas novidades para o público. Além da reformulação de alguns espaços e novo acesso ao centro cultural, o local ganha mais uma coleção de exibição permanente: a Coleção de Instrumentos Musicais Tradicionais Emília Biancardi, com abertura em 11/09, às 17h. A nova mostra apresenta um acervo com mais de mil peças coletadas e recriadas nos cinco continentes, com destaque especial para os instrumentos indígenas brasileiros, além dos africanos e afro-brasileiros. A exposição habita três salas na nova ala do museu, cujo acesso pode ser feito através da segunda portaria que ganha ainda salas de acolhimento e de iniciação musical. O Solar Ferrão e a coleção integram os espaços e acervos administrados pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), da Secretaria de Cultura do Estado.

Na abertura, a etnomusicóloga e pesquisadora Emília Biancardi, juntamente com a Orquestra Mudeofônica, apresentam a palestra musicada ‘Mestiço por Inteiro’, onde através da utilização de instrumentos musicais tradicionais da coleção de Emília Biancardi, enfoca a diversidade cultural e musical dos grupos étnicos formadores da nossa sociedade. A Orquestra Museofônica é uma proposta pedagógica musical idealizada pela Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (DIMUS/IPAC), Ana Liberato, tendo como referencia a Coleção de Instrumentos Musicais Tradicionais Emília Biancardi. É composta por cerca por 30 integrantes, funcionários atuantes nas instituições museais e no IPAC, além de músicos convidados.

De acordo com o diretor geral do IPAC, João Carlos de Oliveira, além da nova coleção de Emília Biancardi, o instituto promove outras reaberturas, como o Museu Udo Knoff, novas programações no Museu de Arte da Bahia (MAB) e Palacete das Artes que dialogam com outras linguagens artísticas, e obras no Museu do Recolhimento, em Santo Amaro, e no Museu de Arte Moderna (MAM), em Salvador. “Para a reforma do MAM, contamos com o empenho do secretário Jorge Portugal e o apoio do governador Rui Costa, com a liberação de R$ 1 milhão a ser aplicado nessa intervenção”, afirma João Carlos. No final de setembro o IPAC também entrega o Passeio Público à população de Salvador.

“É com muita satisfação que a Diretoria de Museus do IPAC abre à visitação pública, a mostra de instrumentos musicais tradicionais coletados pela etnomusicóloga Emilia Biancardi durante anos de estudos e pesquisas. Doado ao Estado da Bahia em 2011, este acervo enriquecerá as exposições de longa duração do Solar Ferrão”, declarou Ana Liberato, diretora da Dimus.

Nesta nova mostra, o visitante terá oportunidade de apreciar o acervo da colecionadora Emília Biancardi, dividido em três módulos temáticos: Instrumentos Musicais do Mundo, Instrumentos Musicais Indígenas e Instrumentos Musicais Africanos e Afro-Brasileiros. “Será possível observar as semelhanças e as particularidades que marcam cada um dos instrumentos, cuja sonoridade, formato, material, técnica construtiva e modo de tocar expressam a identidade, a tradição, os valores e as crenças das diversas culturas representadas”, disse Emília Biancardi.

Os instrumentos serão apresentados de forma contextualizada ao lado de fotografias e legendas que permitem entender como são tocados. Além disso, os visitantes poderão escutar, por meio de sonorização ambiente, sons emitidos por eles. Outro recurso presente na exposição é um vídeo (curta) mostrando um pouco do trabalho realizado por Emília Biancardi. “Aqui encontraremos um pouco da diversidade e legado cultural dos grupos formadores de nossa cultura, por meio dos instrumentos musicais e de sua musicalidade”, completou Emília.

“Apesar do acervo didático de instrumentos musicais tradicionais nos permitir a realização de ações educativas, a exemplo das aulas de iniciação musical para crianças e adolescentes e da Orquestra Museofônica, formada por colaboradores do Solar Ferrão e convidados, sentíamos a necessidade de apresentar a riqueza, historicidade e diversidade presentes nesta coleção. Era um compromisso com o público que nos visita, ao mesmo tempo, uma forma de reconhecimento a Emília Biancardi, pelo trabalho de anos dedicado à pesquisa e o incentivo às tradições populares”, declarou Osvaldina Cézar, coordenadora do Solar Ferrão.

INSTRUMENTOS MUSICAIS TRADICIONAIS DO MUNDO

Instrumentos musicais tradicionais de corda, sopro e percussão são encontrados em todo o mundo, em diferentes épocas e culturas. Através de pesquisas históricas, iconográficas e etnomusicais é possível conhecer a trajetória dos instrumentos, suas origens, transformações adaptativas e modernizações.

O monocórdio, antepassado primeiro de todos os instrumentos musicais de corda, através dos séculos e entre diversas culturas se tornou o rabab ou rebab, da antiga Pérsia, Arábia e Norte da África. Na Europa medieval foi levado pelos cruzados, em especial pelos músicos trovadores que os acompanhavam e tocavam alaúde. Após muitos desdobramentos, nasceria o sofisticado violino, que propiciou o surgimento de vários outros instrumentos de corda.

Outro exemplo de circularidade e transformações é o pandeiro, instrumento musical de percussão. Considerado um dos mais antigos instrumentos musicais existentes que, segundo vários estudiosos, parece ser originário do Oriente Médio ou da Índia. Há registro de seu uso em várias culturas da Antiguidade, inclusive entre os hebreus, segundo o Antigo Testamento. Na Idade Média esteve presente na Europa em festas religiosas e profanas, e foi levado pelos ciganos para diversos países. Via Portugal, chegou ao Brasil no período colonial, tornando-se bastante popular em vários ritmos até os dias de hoje. De couro esticado sobre uma base, sua transformação nesse processo trouxe incorporações (as platinelas de metal nas laterais) e alteração de tamanhos, gerando variações.

INSTRUMENTOS MUSICAIS TRADICIONAIS AFRICANOS E AFRO-BRASILEIROS

O berimbau é o instrumento mais característico da Bahia. Esse instrumento monocórdio de arco e corda tem antepassados milenares em vários países. É composto por um arco de madeira vergado com uma cabaça cortada na parte inferior e uma única corda de arame tensionada, que é percutida por uma vareta de madeira acompanhada de um caxixi (pequeno chocalho de palha ou vime trançado com alça para segurar). Um dobrão (moeda, pedra roliça ou ruela de metal), segurado na altura da cabaça, ao tocar a corda interfere na vibração, dando ao som, timbres diferentes. Para a maioria dos estudiosos, o berimbau atual é de origem africana banto. Há registros de seu uso no Brasil, pelos afrodescendentes, nas ruas (vendedores ambulantes e pedintes) e nas festas populares sendo, depois, incorporado à roda de capoeira.

No início da colonização do Brasil, introduzido pelos portugueses, existia outro tipo de berimbau, tocado de boca, que caiu em desuso: trompa de Paris, harpa de boca ou guimbarda. Atualmente existem na Bahia três variedades de berimbaus: Gunga ou berimbau de barriga (possui uma cabaça grande e produz um som grave), Médio (que possui uma cabaça de tamanho médio) e Berimbau Viola (de som agudo, cabaça de tamanho pequeno).

O SOM DOS ESQUECIDOS

Os instrumentos musicais tradicionais indígenas da coleção Emília Biancardi formam um dos mais significativos conjuntos do país. Cada instrumento traz os segredos de sua confecção. Feitos originalmente com elementos das florestas, os sons evocam a comunhão com a natureza. Entre os índios brasileiros predominam os instrumentos de sopro, seguidos dos chocalhos e em menor quantidade de percussão e de corda.

A flauta Uruá é tocada pelos povos da região do Xingu, somente por homens, sendo-lhe atribuído o poder de afastar os maus espíritos antes do Kuarup. Mede cerca de dois metros e, geralmente, é feita de bambu, composta por dois tubos sem furos atados de tamanhos diferentes, soprados de forma alternada. Infelizmente, a espécie de bambu utilizada na confecção dessas flautas não mais existe na região. Por isso, outros materiais como o PVC foram usados.

Em 2003, visitando a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), dois caciques das aldeias Yawalapiti e Kuikuro do Parque Indígena do Xingu identificaram uma espécie similar do bambu de origem asiática, cujos feixes coletados foram transformados em flautas. Mudas foram enviadas e plantadas na aldeia Yawalapiti, onde a coleta da matéria-prima permite a continuidade de uma tradição. Diversas músicas tocadas pelos povos do Xingu foram aprendidas com os Bakairi, que migraram para outras regiões e perderam essa tradição. Esses sons são ecos dessa história, “os sons dos esquecidos”.

EMÍLIA BIANCARDI E A SUA COLEÇÃO

 A etnomusicóloga baiana Emília Biancardi empreendeu, ao longo de sua vida, importantes pesquisas buscando entender a experiência humana na criação de sons. Nascida em Salvador, passou sua infância em Vitória da Conquista, cidade do interior da Bahia. Desde pequena vivenciou a música com a mãe ao piano e o pai nas batucadas de mesa. Entre o erudito e o popular construiu a sua formação musical, apaixonando-se pelas manifestações populares.

A coleção foi uma consequência da pesquisa de instrumentos musicais provenientes de várias partes do mundo, tecendo conexões nas similaridades e singularidades. Esse conjunto, com destaque especial para os instrumentos indígenas brasileiros, uma das mais completas coleções existentes, foi doado pela colecionadora ao governo do Estado da Bahia em 2011. São mais de mil peças, entre coletadas e recriadas.

Atualmente, Emília Biancardi continua suas pesquisas e experimentações musicais dinamizando e difundindo tradições populares, a exemplo da Orquestra Museofônica, idealizada pela museóloga Ana Liberato, diretora da Dimus.

CENTRO CULTURAL SOLAR FERRÃO

Datado do final do século XVII, o Solar Ferrão, edifício de notável valor arquitetônico, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional – IPHAN – em 1938, configura-se como um dos mais significativos exemplares da arquitetura luso-brasileira do período colonial.

A edificação atual, possivelmente resultante da fusão de dois imóveis, cuja hipótese baseia-se na presença de duas portadas de épocas distintas e na identificação de dois corpos, de caracteres, alturas e outros elementos construtivos diferentes, composta de seis pavimentos e porão. Abriga a Galeria Solar Ferrão, o Museu Abelardo Rodrigues (cujo acervo de arte sacra brasileira é considerado um dos mais importantes do país) e três coleções: a coleção de Arte Popular, a Coleção Claudio Masella de Arte Afriana e a Coleção de Instrumentos Musicais Walter Smetak. Agora com mais uma coleção, o da etnomusicóloga Emília Biancardi.

 

Visitação: terça a sexta, de 12h às 18h. Sábados, domingos e feriados, das 12h às 17h

Entrada: grátis

Rua Gregório de Matos, 45, Pelourinho, Salvador

(71) 3116- 6743

Núcleo de Comunicação – Ascom Dimus

Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia
Palácio da Aclamação
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(71) 3117-6445
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