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2 de Julho: IPAC realiza ações para preservar tradição

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“Os bens culturais imateriais como o ‘2 de Julho’ asseguram a memória de um povo, sua história e cultura. Só se valoriza o que se conhece. Por isso, todos nós, agentes públicos e sociedade em geral precisamos conhecer a riqueza e importância da nossa história e nosso patrimônio cultural para poder preservá-lo”. A declaração é do diretor geral do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), João Carlos Oliveira, e refere-se à proximidade das comemorações pela data de Independência da Bahia e da importância de se ter o tradicional Cortejo 2 de Julho como patrimônio imaterial e também do trabalho que é feito pela preservação dos bens materiais relativos a esta data.

O histórico de 2 de julho marca a vitória dos brasileiros na consolidação da independência do Brasil na Bahia, com a conquista da Marinha e do Exército sobre tropas portuguesas. O Cortejo 2 de Julho realiza até hoje o mesmo trajeto que as tropas libertadoras brasileiras fizeram ao tomar a capital baiana dos portugueses em 1823. Devido à importância desta data, o IPAC criou um dossiê que possibilitou o cortejo se tornar oficialmente Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia desde 2006, por meio do decreto nº 10.179.

Neste contexto, é imprescindível falar das fanfarras e bandas que fazem parte desta festa, levando música e alegria ao cortejo. Atualmente, a Associação de Fanfarras e Bandas da Bahia (AFAB-Ba) se localiza na Rua Gregório de Mattos, Pelourinho, ao lado da Casa do Olodum e em frente à Praça das Artes, em mais um imóvel cedido pelo IPAC para uma instituição cultural.

Carro do Caboclo é restaurado
Esta data é também celebrada em outros municípios baianos, a exemplo de Itaparica, onde em 1823 foi palco de batalhas pela independência da Bahia. Naquela cidade, é realizada a Festa do Caboclo de Itaparica, entre os dias 6 e 9 de janeiro, desde 1824, em homenagem à independência e ao povo nativo que morreu nas batalhas.

Peça fundamental nessa celebração é o carro do Caboclo João das Botas, considerado o herói da cidade, que foi totalmente restaurado no final de 2018, após seis meses de trabalho minucioso comandado pelo coordenador do setor de restauro do IPAC, Takeo Shishido. Ele conta que o carro estava totalmente enferrujado, com a madeira podre e a estrutura toda se desfazendo. “Ao longo dos anos, recuperações foram feitas sem a orientação de uma equipe especializada em restauro. Encontramos cimento, sacos plásticos onde deveria ser madeira, por exemplo. Encontramos ainda cerca de 30 camadas de tinta. Retiramos todo este material; restauramos a madeira e a pintura original da obra”, informou.

No início de 2018, o IPAC já tinha entregue, após outra solicitação da Prefeitura Municipal de Itaparica, a imagem do Caboclo totalmente restaurada. O trabalho minucioso de estudo da peça resultou num diagnóstico que apontou variações na textura devido a quatro camadas de repintura e junções defeituosas em nível e volume. Para corrigir os problemas, foi feita a remoção mecânica de eventuais resquícios de tinta, massas e colas, a retirada de repintura dos olhos e boca com a reposição de pintura mais adequada, e a estabilização das áreas de junções (braço, mãos, pés e outros).

Caboclo no museu Solar Ferrão
Outro destaque do patrimônio material é a imagem do Caboclo que faz parte da Coleção de Arte Popular em cartaz no Centro Cultural Solar Ferrão (Pelourinho) que, segundo pesquisas do museólogo do IPAC Guilherme Castro, pode ter sido a que esteve no desfile do centenário do 2 de Julho, em 1923.

“A peça não tem nenhuma documentação científica que comprove sua origem e procedência, mas pelo estilo e traços dos seus pés e mãos que possuem semelhança com as obras do escultor baiano Pedro Ferreira (1896), autor de um conjunto expressivo de esculturas sacras da década de 20 e formador de vários discípulos, é possível que a peça tenha sido produzida nesta mesma época”, explica.

A Coleção de Arte Popular detém peças representativas da Cultura Popular do Nordeste, coletadas entre as décadas de 50 e 60 do século XX, pelo cenógrafo e diretor de teatro Martim Gonçalves e pela arquiteta italiana Lina Bo Bardi. A visitação é gratuita de terça a sexta, das 10h às 17h; sábado das 13h às 17h.

Avô de Castro Alves, o “Periquitão”, herói das batalhas do 2 de Julho
Os livros didáticos situam o dia 7 de setembro de 1822 como marco da Independência do Brasil, quando Dom Pedro I desembainhou sua espada às margens do Rio Ipiranga (SP) para cortar os laços com a Corte lusitana. Porém, a separação de Portugal só foi encerrada após um processo histórico doloroso, marcado por revoltas e por uma guerra finalizada em 2 de julho de 1823, quando foram expulsas do país as tropas portuguesas que haviam se aglutinado em Salvador para resistir às pretensões separatistas da Colônia.

João Antônio, avô do poeta Castro Alves, fez parte e foi um dos heróis da guerra. Enquanto chegavam reforços de Portugal e Dom Pedro I contratava oficiais estrangeiros para ajudar a expulsar os portugueses, o sertanejo chegava a Cachoeira com homens e farta munição. João Antônio montou por conta própria o “Batalhão Voluntários do Príncipe” que ficaria conhecido como “Batalhão dos Periquitos”, por causa do uniforme que tinha colarinhos e punhos verdes. Ele, assim, também passou a ser chamado de “Periquitão”.

Parte dessa tropa, Maria Quitéria cortara o cabelo bem curto, vestira as roupas do cunhado, José de Medeiros, e se alistara disfarçada de homem com os documentos do marido da irmã. Ela era o “soldado Medeiros”, respeitado pelos colegas pela bravura nos combates. Quando o Batalhão dos Periquitos entrou na capital, em 2 de julho de 1823, foi aclamada pelo povo.

O poeta Castro Alves (1847-1871) escreveu em homenagem à vitória dos brasileiros na guerra da independência na Bahia: a “Ode ao 2 de Julho”, declamada em São Paulo, em junho de 1868 e o poema ”Ao Dois de Julho”, escrito na Bahia em 1867, ambos para o livro “Espumas Flutuantes”. Esta memória do poeta vem sendo preservada pelo IPAC no Parque Histórico Castro Alves, localizado em Cabaceiras do Paraguaçu, Recôncavo baiano, onde nasceu o poeta!